
Bruna Pimenta brincando com o cão que resgatou. Foto por: Isabel Ruiz

Bruna Pimenta brincando com um dos cães resgatados. Foto por: Isabel Ruiz

Bruna Pimenta brincando com o cão que resgatou. Foto por: Isabel Ruiz
Campinas tem cerca de 22 mil animais abandonados nas ruas
Em meio à tantos problemas sociais, o abandono de animais não pode ser ignorado, por isso pessoas como Bruna Pimenta lutam contra essas estatísticas
Por Isabel Ruiz
Segundo dados disponibilizados pela Prefeitura de Campinas, levantamentos da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que a cidade conta com 200 mil cães na cidade e 20 mil gatos, sendo destes 10% em situação de rua. Isso mostra que vivem em abandono nas ruas aproximadamente 20 mil cães e dois mil gatos. Em uma matemática rápida, 22 mil animais estão circulando pelas ruas de Campinas sem nenhum tipo de cuidado básico e muito menos prevenidos de doenças e maus tratos.
Esse número torna-se ainda mais preocupante quando aliado ao fato de que não existem medidas efetivas de prevenção para procriação. Com isso, essa estimativa aumenta diariamente, sem contar com os abandonos “propositais” provocados por maus tratos e negligências humanas.
A Prefeitura de Campinas sancionou em julho de 2017 a lei nº 15.449, chamada de Estatuto dos Animais, que engloba vários aspectos da convivência dos homens com os animais na cidade, buscando minimizar as questões referentes aos maus-tratos. O órgão responsável por fiscalizar essa medida é o Departamento de Proteção e Bem-Estar Animal, o mesmo que tem criado diversas medidas públicas para a conscientização das pessoas em relação aos animais. Quase todas essas medidas, porém, são voltadas aos animais que têm um dono.
São pertencentes à essas medidas vacinação gratuita, castração de animais, microchipagem de cães e gatos, ressocialização de animais agressivos, fiscalização de casos de maus tratos, criação do Estatuto dos Animais e o programa de atendimento e acompanhamento dos animais de moradores de rua. As únicas medidas efetivas para animais sem dono seriam o SAMU animal e as feiras de adoção presenciais e online, uma vez que não é preciso que alguém vá até o órgão realizador destas.
Ainda em relação às medidas do Departamento de Proteção e Bem-Estar Animal, existe o mantimento e criação de canis, os quais hoje são 280 espalhados pela cidade, responsáveis por um total de 40 adoções por mês.

CUIDAR DE UMA VIDA
Diante dessa realidade na cidade de Campinas, existe solidariedade. Pessoas anônimas lutam diariamente para mudar esse cenário. Um exemplo é a estudante de Publicidade e Propaganda Bruna Pimenta Campagnole, de 21 anos, que mesmo jovem se importa com todos esses dados e acredita que animais de rua são vidas que precisam ser salvas. Isso não é de hoje. A jovem se considera uma protetora dos animais há sete anos, mas conta que esse tipo ação sempre fez parte da sua vida. “O primeiro cachorro que eu trouxe para a minha casa foi quando eu tinha sete anos. Eu estava brincando na rua da casa da minha avó e trouxe uma cachorrinha para dentro de casa que ficou comigo até o final da vida dela”, afirma.
Exatamente essa sensação de cuidar de uma vida do começo ao fim é que fez a Bruna acreditar nas suas ações, assim como enxergar que era capaz de fazer o bem ao próximo de maneira efetiva e sem depender de outras pessoas. Para o teólogo e cientista de religião Jung Mo Sung, as pessoas inseridas na sociedade vivem o chamado “vazio existencial”, que é a classificação social dentro das situações em que a pessoa atua, mas que não representa aquilo que ela realmente é.
“As pessoas que estão assim e fazem um ato solidário, sentem-se bem, se encontram. Isso é, ao ser solidário com seres em situações difíceis, você consegue entrar em contato com você mesmo para além das classificações sociais”
,pondera. Sung ainda reforça que no momento em que a pessoa encontra-se consigo mesma, o resultado é sentir-se bem, uma vez que será capaz de sofrer a dor do outro e reconhecer suas próprias dores e características.
Apesar de todas as dificuldades e perigos, a jovem protetora de animais alega que salvar a vida desses seres faz parte da vida dela e que não é algo que pode simplesmente parar de fazer. É o sentimento de salvar vidas que a faz completa, e essa característica a acompanha a começar de sua infância. Desde que se recorda, a jovem questiona seus familiares sobre as injustiças que via na televisão e sempre teve interesse no terceiro setor. Apesar de já ter feito parte de diversos trabalhos sociais, como o projeto Make a Wish com crianças em estado terminal, foi com os cães que Bruna se reconheceu como pessoa.

Bruna Pimenta: Empenho
DE DUAS A QUATRO PATAS
Ainda que muito difícil, é indubitável que o trabalho social de Bruna Pimenta tenha seu reconhecimento e seja influenciador de boas causas. Foi o que aconteceu no caso da funcionária pública Maria Cristina de Oliveira, 54, que nunca havia tido um cão, mas que agora abriga há três anos um ex-lar temporário, o Simba.

Maria Cristina de Oliveira
É com a história da Maria Cristina de Oliveira que se pode afirmar que os resgates da Bruna não ficam apenas no âmbito dos animais, pois quando uma vida de quatro patas é salvada, também se salva pelo menos uma vida de duas patas.
“O meu trabalho de protetora de animais independente começa quando eu recebo algum tipo de denúncia sobre maltrato ou algum animal abandonado na rua. Como meu trabalho ficou bem conhecido, e muitas pessoas já adotaram cachorros comigo, as pessoas acabam vindo me procurar e fazer as denúncias. É nessa hora que eu vou até o local”, explica a jovem sobre o funcionamento de suas ações. Bruna também conta que no momento do resgate a relação estabelecida se restringe entre ela e o animal, e que em todos os casos existe uma “conexão de olhar”, o momento em que o animalzinho sabe que a partir de então parou de sofrer.
Após esse primeiro momento, o resgate passa a envolver outras pessoas, de maneira direta, em forma de lares temporários e médicos veterinários ou de maneira indireta, em forma de doações em dinheiro ou doações de ração e medicamento.
A jovem participa de todo o processo de salvamento até a adoção do animal, esta bastante criteriosa, uma vez que Bruna ressalta a existência de preconceito das pessoas em relação aos animais, principalmente aqueles sem raça. “Eu já ouvi várias vezes perguntas como ‘por que você não vai ajudar crianças? Você fica aí ajudando esses cachorros’ mas eu acredito que cada um tem que fazer a sua parte naquilo que te faz bem e feliz consigo mesmo”, argumenta. “A maior dificuldade de resgatar animais de rua são as pessoas”, completa.

FAZER DAS TRIPAS CORAÇÃO
Durante a entrevista com a equipe Uma Vida pelo Outro, o teólogo Jung Mo Sung fez um analogia sobre a solidariedade em que uma criança querer ajudar a mãe a lavar copos de cristal não seria possível, já que para isso é necessário ter determinadas habilidades, assim como na ação solidária a pessoa precisa ter a competência relacionada a uma ação concreta, de modo que somente o sentimento de solidariedade não passa de “boa vontade”, mas que quando movido à compaixão, se torna uma ação eficaz e geradora de frutos.
Porém já é conhecido que toda ação tem uma reação, e isso não é diferente em ações sociais, como o salvamento de animais abandonados. “Eu tenho o dedo no salvamento de mais de mil animais, então quando eu olho para trás eu desisto de desistir na hora. Mas é claro que já pensei em parar, tem muita coisa envolvida”, alega Bruna ao contar de suas dificuldades em resgatar animais.
Além dos riscos de agressões e ameaças por ir sozinha nas ações para retirar o animal de uma pessoa até então “dona”, a jovem também ressalta as dificuldades para levantar fundos para os resgates.
Um cachorro saudável que precisa apenas de exames rotineiros e vacinas tem um custo de aproximadamente R$400,00. Por outro lado, um cachorro que foi atropelado ou tem uma doença específica, por exemplo, tem um custo aproximado de R$1000,00.
“Eu consigo esse dinheiro pedindo para as pessoas que eu conheço, posto no Facebook os casos e muita gente que me conhece pelo meu trabalho e até já adotou algum cachorro comigo, me ajuda”, conta Bruna.
Todos os casos são importantes e todos os casos são sérios, porém, na visão de Bruna Pimenta, os mais complicados são os resgates de maus-tratos, porque o cão chega desacreditado depois de conhecer a pior parte do ser humano. Quando salvos, porém, os cães conseguem perceber que a partir de então ele não vai mais sofrer e isso faz a jovem perceber que mudou uma vida, e essa é a gratidão de suas ações.

Bruna Pimenta: Dificuldades
ALÉM DO PORÉM
Apesar de todas as dificuldades dos resgates, Bruna Pimenta consegue enxergar que no tempo em que está agindo nessa área existe um crescimento na conscientização sobre a existência dos animais de rua, assim como o conhecimento das condições em sua maior parte precária dos canis. “Eu mesma quando comecei não imaginava que a população de animais sem teto era maior que a de pessoas sem teto e a gente não vê, porque nos bairros que frequentamos não tem cachorro, não temos contatos com isso”, conta.
A jovem também compreende que não adianta só ajudar e usa até a expressão “enxugar gelo” para se referir à situação de resgatar os animais de rua, à medida que as pessoas que os abandonam não deixam de o fazer. Bruna também sugere a solução para o problema como sendo conscientizar crianças, a fim de que estas cheguem à vida adulta respeitando os animais e sabendo que cada um merece seu espaço no mundo, não como selvagens, mas como interdependentes.
![]() Filhotes resgatados por Bruna Pimenta. Foto arquivo pessoal | ![]() Filhotes resgatados sendo cuidados por Bruna Pimenta. Foto aquivo pessoal | ![]() Filhotes Resgatados depois de serem cuidados esperando por um lar. Foto por: Isabel Ruiz |
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Jung Mo Sung explica que muitas vezes as pessoas ligadas a ações solidárias carregam consigo um complexo de querer resolver os problemas do mundo, e que isso obviamente não é possível, mas o que pode ser feito é mudar o mundo dos seres que estão sendo ajudados de maneira direta ou indireta. “As pessoas que fazem ações solidárias precisam assumir mais publicamente o diferencial na vida de fazer isso para as pessoas começarem a desconfiar que existem pessoas mais felizes em caminhos diferentes, como o caminho da ajuda”, afirma Sung em relação a importância da solidariedade como caminho divergente à sociedade moderna.

É com esse pensamento que Bruna Pimenta continua sua missão de resgatar os animais de rua. Durante toda a entrevista com a equipe Uma Vida pelo Outro reforçou a frase que
não faz os resgates apenas para os animais e por eles, uma vez que ao mesmo tempo que sonha em viver em um mundo melhor, eles a salvam todos os dias.
“É só olhar na carinha deles que eu me sinto purificada, limpa e renovada. É o que me faz bem o tempo todo, é o porquê de muitas coisas na minha vida”, conta a jovem emocionada ao se referir às vidas salvas.
![]() Bruna Pimenta e Maria Cristina brincando com o ex lar temporário, Simba. Foto por: Isabel Ruiz | ![]() Maria Cristina de Oliveira brincando com seu ex lar temporário Simba. Foto por: Isabel Ruiz | ![]() Simba resgatado por Bruna Pimenta e ex lar temporário da Maria Cristina de Oliveira, agora morador e amigo fiel da funcionária pública. Foto por: Isabel Ruiz |
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