
Terezinha na briquedoteca do hospital Boldrini. Foto por: Isabel Ruiz

Terezinha na brinquedoteca do hospital Boldrini. Foto por: Isabel Ruiz

Terezinha na briquedoteca do hospital Boldrini. Foto por: Isabel Ruiz
Câncer é a doença que causa o maior número de mortes em crianças no Brasil
Um sorriso dentro de um hospital pode ser a ajuda que falta na batalha
contra a enfermidade
Por Rodrigo Sales
Segundo a última estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer atinge cerca de 596 mil pessoas somente no Brasil. Desse total, 12 mil e 600 são crianças, sendo que o câncer infantil é a doença responsável pelo maior número de mortes entre a faixa etária de 1 a 19 anos (8% do total).
Para o tratamento da doença, segundo a Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (SOBOPE), são recomendadas a quimioterapia e a radioterapia, duas formas de tratamentos intensivos, que têm como objetivo matar as células malignas que se proliferam pelo corpo. Entretanto, elas também atingem as células sadias, ocasionando reações adversas, tais como náuseas e vômitos, queda de cabelo, além do paciente se sentir cansado, debilitado e deprimido.
As crianças com câncer passam boa parte de suas infâncias indo a hospitais, pois os tratamentos são demorados. Segundo a SOBOPE, a quimioterapia pode durar de seis meses a trinta meses, dependendo do estágio de desenvolvimento da doença. E mesmo após a doença já estar controlada, ainda é necessário passar por mais sessões, para impedir o nascimento de novas células malignas. Apenas após cinco anos sem nenhuma reincidência da doença, é que se pode dizer que a pessoa está curada.
O câncer infantil costuma ser mais agressivo que o adulto, pois a criança ainda está em um processo de desenvolvimento, ou seja, suas células se multiplicam mais rapidamente, inclusive as malignas.
Apesar disso, a chance de recuperação é considerada alta, em torno de 80%, se diagnosticados rapidamente e tratados em centros especializados, com grandes chances de a criança ter uma boa qualidade de vida após o tratamento. Isso porque as células em constante divisão são as que melhor respondem a quimioterapia, ocasionando um alto índice de cura.
Por conta da agressividade da doença e da demora para efetivamente curar a pessoa, as idas aos hospitais são constantes, fazendo com que as crianças tenham uma rotina diferente de grande parte das outras de sua idade.
Os períodos de internação, o cansaço após as sessões, a queda de pelos do corpo, entre outras dores, dificultam a vida dessas crianças, que passam boa parte de suas infâncias em hospitais, sem poderem brincar como as demais. É isso o que afirma a médica Maria Cristina Cuter, especialista em oncologia pediátrica. Para ela, “cada criança reage de uma forma diferente, mas após um diagnóstico de uma doença crônica, a princípio, todas as crianças e as famílias têm medo, ansiedade, revolta e negação”.
Ela ressalta que o acompanhamento de um psicólogo é de suma importância para lidar com essas dificuldades. Mas, além disso, há outras pessoas que dedicam a sua vida para levar a alegria para essas crianças, possibilitando que elas consigam saborear a infância, mesmo nos momentos de dificuldade.

O COMEÇO DA DOAÇÃO
Teresinha Nogueira, conhecida como Dona Teresinha, 84 anos, aposentada, não é uma senhora qualquer. Desde 1969, ela ajuda hospitais, especialmente o Centro Infantil Boldrini, que tem como foco o tratamento de câncer e doenças no sangue em crianças. Tudo começou com o próprio filho, quando ele tinha seis anos e não conseguia andar. Após muita oração, o filho começou a andar e como forma de retribuição, ela e seu marido tiveram a ideia de levar presentes para as crianças internadas no departamento de pediatria da Unicamp. Ela se vestiu de Mamãe Noel e ele de Papai Noel e distribuíram a alegria para as crianças daquele hospital. Esse processo continua até hoje, com ela comprando presentes para as crianças em datas comemorativas, se fantasiando de palhaço para alegrá-los e estando presente no dia a dia do hospital, para ajudar no que for necessário.

Terezinha Nogueira: Empenho
A AJUDA QUE VALEU UMA VIDA
Cassia Aparecida, 56 anos, diz que Teresinha é um anjo na vida de seu filho, Adriano, que quando tinha 2 anos e meio descobriu que estava com Linfoma, um câncer no sistema linfático, e que foi salvo com a ajuda de Teresinha.

Cassia Peron
UMA BONITA DESPEDIDA
Teresinha, no decorrer dos anos, já passou por diferentes histórias, boas ou ruins, mas que ela guarda com carinho em seu coração. Uma dessas histórias é de uma criança que nasceu em Roraima e estava sendo tratada no Boldrini. A criança, por conta do câncer, já não estava enxergando mais e mesmo assim, gostava de colocar a mão na massa. Ela gostava de visitar a casa de Terezinha para ajudá-la a fazer pães. Um dia, a mãe da criança ligou para a Teresinha, contando que ela tinha falecido, em decorrência da doença, e que no dia anterior, ela tinha pedido para a mãe ligar para a Teresinha, para mandar um abraço. Para Teresinha, essa foi a sua despedida.

Para Cassia, Teresinha é um anjo na vida de Adriano. Foto por: Isabel Ruiz
OS PESARES DE SEU TRABALHO
O trabalho voluntário traz uma sensação boa, de ajudar o próximo, mas ao mesmo tempo, é um trabalho difícil, por conta do dinheiro e do próprio tempo. Para Teresinha, as dificuldades aparecem, mas ela não gosta de ficar pedindo ajuda para os outros. Ela mesma corre atrás do que precisa. Uma de suas maiores tristezas é ter trabalhado a vida toda como servidora pública e não conseguir usar o transporte da prefeitura para casos que precisa levar uma criança para outro município, para outros hospitais, tendo que arcar os custos com o próprio bolso ou com rifas, que ela usa para arrecadar fundos para cobrir os gastos de pedágio e gasolina. Mas segundo ela, mesmo com as dificuldades, nunca pensou em desistir, por causa das alegrias que recebe.

Terezinha Nogueira: Desafios
ELA FAZ DE TUDO
Quando Terezinha começou a ajudar no Boldrini, muitos exames eram caros e era necessário o transporte para São Paulo. Como ela tinha uma ambulância, fazia essas viagens por conta própria. Hoje, ainda ajuda no transporte para outros municípios com o próprio carro e quando não pode comparecer, tenta arranjar transportes gratuitos, por conhecer médicos de vários hospitais de São Paulo e região.
Terezinha também é a responsável por entregar os presentes que são doados ao Boldrini, além de comprar presentes do próprio bolso e de se fantasiar de palhaço, ou do que for preciso, para alegrar o dia dessas crianças.

Terezinha dando entrevista no hospital Boldrini. Foto por: Isabel Ruiz

Terezinha dando entrevista no hospital Boldrini. Foto por: Isabel Ruiz

Terezinha dando entrevista no hospital Boldrini. Foto por: Isabel Ruiz
SOLIDARIEDADE VERDADEIRA
Teresinha começou o seu trabalho pois queria ajudar o outro. Ela não queria aparecer, impressionar outras pessoas, ou estava fazendo isso para atingir algum objetivo. Após o seu filho começar a andar tardiamente, ela e seu marido sentiram a necessidade de ajudar as crianças que ainda estavam fragilizadas. Segundo a psicóloga Tania Maria José Aiello Vaisberg, docente do programa de graduação, mestrado e doutorado do curso de psicologia da PUC-Campinas, pode-se chamar essa motivação de autêntica, que é aquela que brota da espontaneidade de cada pessoa.
Quando a Teresinha ajuda o próximo, mesmo sem o conhecer, simplesmente pelo seu estado de saúde debilitado, ela faz a solidariedade verdadeira, que nasce ao perceber que o outro é outro.
“Quando eu consigo perceber que nós todos dependemos uns dos outros, nós todos enfrentamos fragilidades, nós todos enfrentamos o fato de que somos mortais, quando eu faço o meu gesto solidário a partir desse amadurecimento pessoal, tudo vai dar certo. Então, a motivação é uma motivação que tem em sua raiz o humano”, afirma Tania.

DOAÇÃO DE AMOR
“O maior benefício que você pode imaginar”. É assim que Teresinha explica o sentimento de fazer um trabalho voluntario e como isso é importante para ela. Ao longo dos anos, ela já recebeu diversas manifestações de amor e carinho, em momentos bons e ruins. Um desses momentos difíceis aconteceu quando ela foi ajudar no transporte de uma paciente, que era de Brasília, mas que faleceu em Campinas. A família da paciente era muito pobre e não tinha como pagar pelo transporte do corpo, mas queriam que ela fosse sepultada na sua cidade.
Então Terezinha começou a procurar opções para conseguir ajudar no transporte. Ela conseguiu abaixar o preço inicial, que era de nove mil reais, para dois mil e quatrocentos reais. Mesmo assim, a família não tinha como pagar e Terezinha falou que ia acertar por conta própria. Ela passou um cheque sem fundo, só para poder ajudar a família.
Quinze dias depois, a mãe da paciente ligou para Terezinha, dizendo que a família se mobilizou para arrecadar o dinheiro e que iriam depositar o que foi gasto com ela. Para Terezinha, esse gesto, de se preocupar com o dinheiro em meio a tanta dor, de pagar o valor, mesmo sem ter boas condições financeiras, esse retorno foi uma doação de amor que ela não esquece.

