top of page

Campinas conta com mais de 600 moradores de rua, diz Prefeitura

Jovem cria página no Facebook para dar visibilidade e dignidade a essas pessoas esquecidas e ignoradas pela sociedade. A ação solidaria é totalmente voluntária e sem receber apoio financeiro.

Por Alexandre Aranha

Campinas registra 623 pessoas em situação de rua. Desses 60% vivem na zona leste, onde se localiza o centro da cidade. Os dados são do último balanço realizado pela Prefeitura de Campinas, em 2016.

Embora existam 11 tipos de serviços oferecidos pelo município para auxiliar moradores em situação de rua, por vezes o trabalho é de pouca assistência e defasado. Essa é a opinião da Adriana Lopes, ex-dependente química e moradora de rua. “Eu não tenho vergonha nenhuma de falar que assistência social não serve para nada em Campinas, além de pegar papel e ficar pegando o nome da gente”, questiona.

Apesar da crítica de Adriana, Campinas oferece, desde 2016, auxílio à população de rua através do projeto “Parceiros da Vida – Mão Amiga”, que capacita as pessoas por meio de oficinas teóricas e práticas a desenvolverem habilidades que as possibilitem voltar ao mercado de trabalho. Quem conclui a primeira etapa do processo teórico, passa a receber 122 UFICs (Unidade Fiscal de Campinas), moeda relativa a tributos e créditos públicos na cidade. O valor equivale a R$922,00.

Infográfico por: Alexandre Aranha

BONDADE

Campineiro de nascimento, mas carioca de coração, Filipe Luna se destaca pela maneira como vê os problemas sociais de sua cidade natal. Jovem de apenas 23 anos, o estudante de Direito é o criador da página “Campinas Invisível”, no Facebook. O projeto consiste em sair pelas ruas do centro de Campinas, conversar com moradores em situação de rua, ouvir as histórias que eles têm para contar e depois transformar tudo que foi ouvido em um post na página, sempre acompanhado com uma fotografia da pessoa. Filipe conta que por diversas vezes já comprou comida para os moradores em situação de rua e sentou ali no chão do centro da cidade para comer com eles. Filipe enxerga e da atenção para aqueles que todo o resto vira as costas.

Filipe afirma que a primeira lembrança que tem fazendo um ato de solidariedade foi aos seis anos de idade, quando foi abordado por um morador em situação de rua, junto com seu pai.

O homem disse a eles que estava sem almoçar, ele então entregou um pacote de balas que acabará de ganhar. “Não era o melhor alimento, mas eu era bem pequeno e quando eu cheguei em casa minha família toda me cumprimentou”, comenta.

Tempos depois, voltando da faculdade de Direito, Filipe cruzou com um homem que pedia esmolas para poder almoçar. Ele então comprou comida e os dois começaram a conversar. O morador de rua revelou que era formado em direito, mas acabou indo parar nas ruas. Foi nesse instante que surgiu a ideia de ouvir histórias dessas pessoas que vivem marginalizadas pela sociedade.

Filipe Luna: Ações

Filipe Luna: Ações

HISTÓRIAS QUE SE CRUZAM

Em três anos de projeto, Filipe já encontrou muita gente, ouviu muitas histórias e se emocionou com as dificuldades encontradas nas ruas. Em uma de suas andanças conheceu a Adriana, mulher de temperamento forte, mas que quando fala sobre o amigo demonstra muita gratidão por um dos responsáveis da sua saída do mundo das drogas e vulnerabilidade das ruas.

Adriana Lopes

Adriana Lopes

SIMPLES

No total são mais de 40 histórias contadas, entre elas Filipe conta que uma frase que marcou sua vida foi a de um homem que ao ser abordado por ele perguntou: “Por que você está falando comigo? Você é limpo, estudado, não precisa estar aqui”. O jovem então respondeu que isso não era um problema e que queria conversar. No final do encontro o homem agradeceu por ter sido enxergado pelo jovem. “Isso só evidenciou o quão invisível ele era perante a sociedade e quão importante era trabalho de levar a história dele para outras pessoas”, afirma. Nesse projeto ele foi capaz de entender melhor as pessoas e reconhecer que todos erram e acertam e, principalmente, reconhecem os indivíduos como iguais, estando ou não em situação precária na rua.

Filipe e Adriana: histórias de vidas cruzadas pela solidariedade. Foto por: Isabel Ruiz

Filipe e Adriana: histórias de vidas cruzadas pela solidariedade. Foto por: Isabel Ruiz

DESISTIR? JAMAIS!

Filipe acredita que o apoio da família foi importante para que ele continuasse desenvolvendo o projeto, mas admite certas preocupações em relação a sua segurança, quando ele sai pela madrugada para conversar e dar comida para os moradores em situação de rua.

 

“Quando eu fazia ações na madrugada ou à noite ou quando eu ia em locais tidos como perigosos, logicamente que havia uma certa apreensão em casa, mas nunca houve nenhum tipo de obstrução”, declara.

Além disso, nunca pensou em desistir de fazer as ações, contar as histórias e ajudar quem está precisando, pois percebeu a importância que ele tem na vida destas pessoas.

Filipe Luna: Persistência

Filipe Luna: Persistência

COMPAIXÃO

Segundo o jornalista, doutor em Antropologia e professor em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Jorge Cláudio Ribeiro, a solidariedade existente nas ações de Filipe são, basicamente, a compaixão, isso é, a capacidade de entender e sentir a dor ou alegria do outro. “Não é simplesmente fazer coisas, fazer ações”, afirma. Portanto, nesse caso, o jovem se sensibiliza com as histórias que encontra pelas ruas do centro de Campinas, se envolve e absorve as carências e busca ajudar a diminuir esse sofrimento.

Benefícios de práticas solidárias

VIA DE MÃO DUPLA

Questionado sobre as realizações pessoais que as ações solidarias geram em si, Filipe foi enfático em responder que existem muitos benefícios, dentre eles a capacidade de desenvolver a visão de mundo mais social e que reconhece as dificuldades, os diferentes mundos e realidades. “Eu acho que o projeto enriquece muito não só a sua visão de mundo, mas te engrandece quanto pessoa, você enxerga diversas realidade”, completa.

O professor Jorge Ribeiro ainda explica que as ações solidarias são importantes para a pessoa se desenvolver, uma vez que nascemos e aos poucos nos humanizando. Nesse caso, é possível sair das zonas de confortos, das bolhas para enxergar os problemas que cercam os outros indivíduos.

Portanto o ato de ser solidário também traz benefício pessoais para quem pratica as ações.

Jorge completa a entrevista afirmando que conforme o indivíduo vai tornando as práticas solidárias mais recorrentes, as ações se tornam algo concreto e natural, chegando ao ponto de não se pensar mais que está realizando um trabalho de ajuda ao próximo, simplesmente faz. “A solidariedade vai se transformando cada vez mais em algo estruturado, não é simplesmente uma sensação, um sentimento que de repente passa, mas vai se estruturando”, diz ele.

Filipe não vê o preconceito que muitos apontam

Reportagens referentes ao projeto de conclusão de curso da faculdade de Jornalismo da PUC Campinas sob orientação do Prof. Me. Lindolfo Alexandre de Souza

  • Uma Vida pelo Outro
bottom of page