
Associação Maria de Magdala. Foto por: Isabel Ruiz

Associação Maria de Magdala. Foto por: Isabel Ruiz

Associação Maria de Magdala. Foto por: Isabel Ruiz
Prostitutas em Jundiaí enfrentam pobreza, preconceito e falta de possibilidades
Diante da atual situação da cidade, a professora Cristina Castilho, presidente da Associação Maria de Magdala, destaca-se pelo cuidado que oferece a essas mulheres marginalizadas pela sociedade
Por Ana Luísa de Oliveira
“O Brasil é um país que tolera a prostituição”. A frase, dita pela psicóloga Maria de Lurdes Magalhaes de Almeida Munhoz, resume uma das origens dos inúmeros problemas que as prostitutas encaram no país. Isso porque, desde 2002, o Ministério do Trabalho brasileiro reconhece a prostituição como ocupação profissional. Contudo, ainda não é regulamentada, o que dá abertura a diversas formas de violência sexual e violação de direitos. “O sistema de notificações de abusos também tem lacunas de várias ordens, o que compromete dados estatísticos que sirvam de subsídios para a formulação de políticas públicas em prol dessas mulheres”, afirma Maria de Lurdes, que é gerente do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) de DST/Aids de Jundiaí.
Em Jundiaí, cidade localizada no Estado de São Paulo, o cenário não é muito diferente do resto do país. Sem uma lei específica que trate da questão da prostituição, o município é atingido pela marginalização e falta de empoderamento dessas mulheres, assim como pela carência de serviços que garantam acesso a educação e a profissionalização para aquelas que gostariam de trabalhar em outros setores.Com uma média de 500 prostitutas – estimativa atual do CTA baseada nas casas noturnas cadastradas, na abordagem nas ruas e nos atendimentos individuais - a maioria encontra-se nesta situação devido a questões como abuso sexual infanto-juvenil, miséria ligada à promiscuidade sexual, desestrutura familiar e uso de drogas.
Para oferecer possíveis soluções a este problema na cidade, além das ações do CTA por meio do projeto Beijo Lilás, destaca-se o trabalho da Associação Maria de Magdala, entidade que busca, entre diversos objetivos, ajudar mulheres marginalizadas em situação de prostituição, incentivando o seu fortalecimento.

DESCER DA CALÇADA
A história da Associação Maria de Magdala teve origem em uma indignação. Mais especificadamente, da professora Maria Cristina Castilho de Andrade. Para contá-la, é necessário voltar um pouco no tempo.
Na década de 70, pouco se falava sobre sexo, muito menos de prostituição. Por isso, ver mulheres nas ruas oferecendo este serviço despertava a curiosidade das moças de Jundiaí. Inclusive de Cristina. O interesse virou conversa, e a conversa, convívio. Deste contato com as prostitutas, a então adolescente ficou sabendo do sofrimento que muitas carregavam em suas histórias, que nem sempre tinham final feliz. E não teve para uma das mulheres mais próximas de Cristina. “Ela cometeu suicídio. Eu a vi enforcada e foi muito doloroso. Então, aos pés do caixão, eu pedi que Deus me chamasse para trabalhar com mulheres em situação de prostituição”, relembra.
A vida seguiu, Cristina cresceu e entrou para a faculdade. Mas nunca deixou para trás tudo o que viu, ouviu e aprendeu naquela época. “Me parecia uma trajetória de vida imposta, e o que é mais sagrado para o ser humano é a liberdade de escolha”, afirma. Assim, graças ao seu forte vínculo com a religião, começou, em 1982, a Pastoral da Mulher na Diocese de Jundiaí, com orientação do frei Jean Pierre Barruel.
Mas para de fato conseguir ajudar as prostitutas “na sarjeta” das praças de Jundiaí e leva-las para a Pastoral, Cristina precisava “descer da calçada” em que estava. “No primeiro momento, elas me olharam com desconfiança. Ai eu parei para ouvir a história de uma delas, que tinha sido abusada sexualmente desde os sete anos. Ela me quebrou”, conta. Neste momento, ela entendeu que tinha que deixar de lado seu orgulho de se achar superior para conseguir ajuda-las.
Treze anos depois, Cristina percebeu a necessidade de fundar uma entidade para oferecer cursos e um espaço de convivência para as ajudadas da Pastoral. Em 22 de novembro de 1995, fundou a Associação Maria de Magdala, também em Jundiaí.

Maria Cristina Castilho: Empenho
FILHAS DO CORAÇÃO
Cristiane Romeira tem 43 anos e chegou na Associação Maria de Magdala por meio da sua mãe. Na entidade, ela aprendeu a ler e a escrever, entre muitas outras coisas.

Mulheres de Magdala
Maria Aparecida Vilela da Silva, de 72 anos, também frequenta a Associação. “Antes, eu era uma pessoa muito nervosa. Depois que eu entrei, mudei muito. Comecei a respeitar todo mundo, parei com aquela ‘brigaiada’”, conta Maria. Na entidade, ela aprendeu a cozinhar e a ter esperança de melhorar de uma complicação na perna. Hoje, curada, mais calma e ótima cozinheira, ela ajuda a cuidar da casa. “Por mais que eu trabalhe aqui, não paga o que a Cristina fez para mim”.
![]() Cristine afirma que a Associação mudou muita coisa em sua vida. Foto por: Isabel Ruiz | ![]() A entidade trouxe vários benefícios para a vida de Maria Aparecida. Foto por: Isabel Ruiz |
|---|
ADEUS À PLATEIA
Financeiramente falando, a Associação Maria de Magdala consegue se manter. A fundadora explica que nunca faltou dinheiro para pagar as contas, pois recebem investimentos de uma empresa, do Fundo Social de Solidariedade da prefeitura e verbas de transação penal da Terceira Vara Criminal, pois a juíza apoia a entidade. Mensalmente, também são realizados bazares de roupas e sapatos. Isso não significa que tudo foram flores no caminho de Cristina.

Maria Cristina Castilho: Dificuldades
MÃE DOS EXCLUÍDOS
Os olhares de reprovação vindos da população de Jundiaí e até mesmo da própria família não foram suficientes para fazer com que Cristina desistisse.
“Perder a plateia me fez crescer muito como ser humano”, afirma.
Por meio de suas ações, ela continua a luta para oferecer melhores condições de vida para as mulheres marginalizadas. E com seus textos, publicados semanalmente em um jornal da cidade, procura combater o preconceito direcionado às minorias. “A escrita também me dá a oportunidade de exercer a solidariedade, pois os leitores que não têm contato com estas realidades podem mudar a sua visão”, defende. Cristina conta que, apesar de não ter casado e nem ter tido filhos, sente-se preenchida como ser humano. “Acho que toda mulher tem uma maternidade intrínseca, e eu tenho consciência que a minha maternidade é a dos excluídos”, afirma.
![]() A Associação Maria de Magdala fica localizada na cidade de Jundiaí. Foto por: Isabel Ruiz | ![]() Reunião da Maria de Magdala. Foto: Arquivo da entidade | ![]() Pastoral da Mulher de Jundiaí. Foto: Arquivo da entidade |
|---|
DESEJO NATURAL
Conforme dito anteriormente, Cristina cresceu em uma família que lhe cuidou muito. Segundo a psicóloga Tania Maria José Aiello Vaisberg, quando uma pessoa experimenta uma trajetória de desenvolvimento emocional saudável, a solidariedade surge naturalmente. “Faz parte de ser maduro, ser solidário”, explica. “É gratificante quando o gesto solidário nasce como gesto espontâneo, ou seja, como uma expressão da autenticidade. Então, é claro que a solidariedade corresponde a realização do humano”, completa.
O desejo de cuidar das mulheres marginalizadas de Jundiaí apareceu e se desenvolveu em Cristina de forma natural. Por isso, conforme ressalta a psicóloga, a experiência trouxe um enriquecimento muito grande para sua vida pessoal e relacional.

D(O)AR E RECEBER
Questionada sobre os benefícios que ajudar as mulheres trouxe para sua vida, a resposta de Cristina foi rápida: muitos. Profissionalmente, a Associação abriu portas para que ela conseguisse trabalhar em várias instituições de Jundiaí. Atualmente, Cristina é presidente da entidade, com trabalhos e responsabilidades diários; coordenadora da Casa da Fonte, projeto socioeducacional sem fins lucrativos criado pela Companhia Saneamento de Jundiaí (CSJ); e cronista no jornal Jundiaí Agora.
Mas o resultado positivo de tanta dedicação ao outro vai além: com suas “filhas”, Cristina aprendeu a ouvir e a se libertar dos preconceitos.
“Eu sempre gostei de falar bastante, mas você só cresce como pessoa quando ouve os outros. Elas me ensinaram isso. Hoje, não ter preconceitos me dá uma liberdade imensa. Não carrego sentimentos amargos e nem quero me impor, pois cada pessoa tem sua história e ninguém é melhor do que ninguém”, finaliza.






